Há momentos na história que, vistos à distância, parecem óbvios. Sabemos o que aconteceu, sabemos como terminou, sabemos o que mudou. Mas quem os viveu não precisava dessa distância para perceber onde estava.
Antes do 25 de abril, a vida acontecia. As pessoas trabalhavam, iam à escola, cumpriam horários, faziam planos. Havia rotinas, havia até uma certa normalidade no dia a dia. Mas, ninguém confundia isso com liberdade.
Sabia-se que havia limites. Sabia-se que nem tudo podia ser dito, que nem tudo podia ser questionado, que nem todos tinham o mesmo espaço para viver e decidir. Sabia-se que o que era permitido para uns não era para outros. E sabia-se, sobretudo, que aquilo não era nada normal.
As pessoas não eram ingénuas. Eram condicionadas! E, ainda assim, encontravam formas de viver, de resistir, de se adaptar — até ao dia em que alguém decidiu que adaptar já não era suficiente. E ainda bem!
Hoje já não vivemos esse tempo, nem de perto. Mas, isso não nos dispensa de prestarmos atenção ao que está a mudar.
Há cada vez mais quem procure reescrever o significado do 25 de abril, quem relativize o que foi conquistado ou, simplesmente, nunca o tenha aceitado. E isso já não é apenas um detalhe de memória histórica. É um sinal político.
Porque quando cresce a ideia de que a democracia foi um erro, ou de que a liberdade pode ser substituída por ordem, não estamos apenas a discutir o passado, estamos a abrir caminho para voltar a ele.
A democracia não desaparece de um dia para o outro, mas fragiliza-se quando deixa de ser defendida com convicção, quando passa a ser tratada como garantida, quando se permite que o essencial seja posto em causa sem resposta.
Abril não deve ser apenas memória de uma história triste que acabou ali. Deve ser um limite. E quando esse limite começa a ser testado, exige-se mais do que reflexão. Exige-se posição!
(Crónica escrita para Rádio)